Demasiados Héroes
O livro de Laura Restrepo mostra que não é só de Garcia Marquez que a Colômbia é feita. A escritora, que pouco tem em comum com o gênio do realismo mágico, escreve um pouco sobre sua propria história no último livro que lançou, Heróis demais. A história, muito bem tramada, se passa em Buenos Aires em plena ditadura militar e as dificuldades de se relacionar, e principalmente os problemas da relação entre mãe e filho, na Bogotá atual. Sobre os desaparecidos da ditadura, Lorenza explica ao filho:
“A morte de um ser amado é uma coisa atroz, mas no fim das contas, fechada, concluída, sem mais voltas, nem para trás nem para frente. Seu desaparecimento, em troca, é uma porta aberta para a eterna expectativa, para a não resposta, para a incerteza, para o fantasmagórico, e não há cabeça nem coração humanos que possam aguentar sem se aproximar do delírio em maior ou menor medida” p.114
Do Querido Mia:
“Sou mulher, sou Marta e só posso te escrever. Afinal, talvez seja oportuna tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse de minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, eu ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto nem eu mesma me reconheço. Em assuntos de amor só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente.
E escrevo como as aves redigem o seu vôo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter nada que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E nada tenho a dizer do que seremos. “
Antes de Nascer o Mundo, Mia Couto, p.131
Um Jorge muito Amado
O terceiro livro de Jorge Amado, Suor, lançado em 1934, quando o baiano tinha apenas 22 anos de idade, já mostrava as suas habilidades como narrador. Os ideais revolucionários e o encantamento pela causa proletária já tomava corpo no escrever de Amado, que 12 anos depois foi eleito deputado pelo Partido Comunista Brasileiro. A percepção crítica da sociedade que Jorge Amado utiliza com maestria em seu clássico Capitães da Areia, é percebida do começo ao fim de Suor.
” – O negro é liberto, tia.
- Eu sei. Foi a princesa Isabel, no tempo do imperador. Mas negro continua a respeitar branco.
- Mas agora a gente livra o preto de vez, velha.
(…)
- Menino, você sabe qual é a coisa mais melhor do mundo?
- Não.
- Adivinhe.
- Cachaça?
- Não.
- Feijoada?
- Não sabe o que é? É cavalo. Se não fosse cavalo, branco montava em negro…” p.36
Borges fala sobre si
O Ensaio Autobiográfico do argentino Jorge Luis Borges, que encomendei após ler esse post do Caótico, é mesmo maravilhoso. O pequeno livro nos ajuda a entender de onde vem todo o background de cultura européia que Borges se utiliza nos seus conhecidos contos. Fala da chegada da cegueira, de seus amores literários (entre eles Faulkner, Mellville e Cervantes) e de seus amigos que mais admirou, entre eles os escritores Macedonio Fernandez e Adolfo Bioy Casares.
“Para resumir esse período de minha vida, sinto-me em total desacordo com o jovem pedante e um tanto dogmático que fui. Os amigos, porém, estão ainda muito presentes e muito próximos. Na verdade, são uma parte indispensável de minha vida. Penso que a amizade é a unica paixão que redime os argentinos.” p. 53
Cravo e Canela, Gabriela
Um dos mais famosos livros de Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela, me impressionou bastante, graças a fama de sapeca e tarada da personagem, que não é completamente verídica no livro. Isso porque, como é comum com livros que são adaptados para filmes, a Gabriela que perdurou no imaginário popular foi a interpretada por Sônia Braga, no filme de 1983. Esta, faz jus a fama criada.
Diferente da personagem do filme, a Gabriela do livro aparece pela primeira vez na pagína 93 em um romance de 400 paginas, o que para quem imagina um livro com muito amor e suor, é uma surpresa. Até ela aparecer, somos introduzidos a de Ilhéus de 1925, ano em que a história se passa. Lá, conhecemos o bar do árabe Seu Nacib, onde todos os homens da cidade almoçam, bebem e falam da vida alheia. Conhecemos os coronéis antiquados, que pouco fazem para melhorar a vida do município, e o progressista Mundinho Falcão, que almeja mudar tudo pra muito melhor, o cabaré, os fazendeiros de cacau.
É nesse cenário que Seu Nacib acorda numa bela quarta-feira para descobrir que sua antiga cozinheira havia ido embora. Desesperado, Nacib vai ao “mercado dos escravos” atrás de uma cozinheira para o seu bar e volta pra Ilhéus satisfeito por ter contratado uma moça jovem, toda suja de lama e vestida em farrapos, mas que garante “Já fui cozinheira até de casa rica”. É ela Gabriela.
A partir desse momento, a trama de desenrola maravilhosamente. Gabriela tira o sono de Nacib, e deixa o árabe louco de amor. Não só Nacib, a morena de cravo e canela encanta a todos na pequena Ilhéus, todos queremo um pedaço da novata cozinheira. Escolhi um trecho do livro para transcrever, aqui vai um pedacinho dos pensamentos de Nacib sobre Gabriela:
“E como viver sem ela, sem seu riso tímido e claro, sua cor queimada de canela, seu perfume de cravo, seu calor, seu abandono, sua voz a dizer-lhe “moço bonito”, o morrer noturno nos seues braços, aquele calor do seio, fogueira de pernas, como? E sentiu então a significação de Gabriela. Meu Deus!, que passava, por que aquele subito temor de perde-la, por que a brisa do mar era vento gelado a estremecer-lhe as banhas? Não, nem pensar em perdê-la, como viver sem ela?
Jamais poderia gostar de outra comida, feita por outras mãos, temperada por outros dedos. Jamais, ah!, jamais poderia querer assim, tanto desejar, tanto necessitar sem falta, urgente, permanentemente, uma outra mulher, por mais branca que fosse, mais bem-vestida e bem tratada, mais rica ou bem casada. Que significavam esse medo, esse terror de perdê-la, a raiva repentina contra os fregueses a fita-la, a dizer-lhe coisas, a tocar-lhe a mão, contra o juíz ladrão de flores, sem respeito ao cargo? Nacib perguntava-se ansioso: afinal que sentia por Gabriela, não era uma simples cozinheira, mulata bonita, cor de canela, com quem deitava por desfastio? Ou não era tão simples assim? Não se animava em procurar a resposta.“
valter hugo mãe fala sobre a fantástica experiência de ter dormido na cama de Pessoa
Na edição da revista Bravo! desse mês, o escritor português valter hugo mãe (ele que usa minúsculas nas iniciais de seu próprio nome, quem sou eu pra mudar?!) fala da incrível experiência de dormir uma noite no quarto de Fernando Pessoa. A iniciativa foi da própria Casa Fernando Pessoa, endereço mais conhecido do escritor em Lisboa que convidou vários escritores para dormir no quarto de Pessoa, planejando em 2012 lançar um livro com as experiências de cada um dos convidados.
Na crônica publicada na Bravo!, valter hugo mãe conta um pouco sobre a sua infância, da admiração por museus e pelas “pessoas de Pessoa”. Transcrevo aqui um trecho do texto:
“Para mim foi isso de místico. Como não acredito em transcendências, não me preparei para manifestações dos seus inúmeros fantasmas, e não achei que o espelho era passagem, e nem tive medo e nem demasiada ansiedade. Apenas respeito. Dormir no quarto de Pessoa foi, para mim, um gesto simbólico de alguém que não poderia fazer maior homenagem. Nada do que se diga ou escreva vai ser maior declaração de amor do que aceitar este convite para expor a vulnerabilidade do sono à contenção já solene de um exíguo e tão característico quarto.”
Post Inaugural
Como já tenho dois rascunhos desde que criei esse endereço e não consigo concluir nada, resolvi que iria inaugurar o blog hoje de qualquer jeito, antes que vire uma daquelas coisas que começo e nunca termino. Hoje assisti a mesa em que o escritor paulista Julian Fuks conversou com o repórter Paulo Carvalho, promovida pelo Festival A Letra e A Voz, da Prefeitura do Recife. Ouvi uma frase do Fuks, tirada de seu livro “Histórias de Literatura e Cegueira” (que não conheço) e ele escolheu pra ler na ocasião. Me fez abrir a bolsa, tirar o caderno, procurar rapidamente pela caneta, antes que eu esquecesse aquilo que havia decorado e anotar:
“Ao leitor ideal, a insônia ideal”